quinta-feira, 23 de setembro de 2010

UM MINUTO DE SILÊNCIO...

Hoje a tua lembrança assaltou-me particularmente... o passado andou atrás de mim, denso, quase palpável, pegajoso.
Tanto tempo se passou mas eu continuo a caminhar no interior da tua ausência, numa busca desesperada e interminável...
Porque partiste, meu amigo?
Eu sei que sempre fui parco  em palavras e nunca tive talento e arte para te dizer - ao menos uma vez - o quanto eras importante para mim e tantas oportunidades eu tive para o fazer... desde os tempos descuidados da nossa meninice, em que estendidos à sombra de pinheiro esgalhado e cheiroso, nos deliciávamos com os voos dos tordos e pardais... ou a musica sincopada dos balidos dos rebanhos.
Agora é tarde. Tu foste embora e apenas o teu fantasma povoa as minhas horas de solidão.
Viver é perder amigos... e eu perdi-te para sempre.
Naquele final de tarde, Março, mas naquelas paragens não era Primavera...
O crepúsculo de fogo em breve daria lugar a uma noite abafada. Nem uma leve aragem refrescava a atmosfera pesada e morna. As árvores eram manchas escuras que mal definiam o recorte da ramaria. O sol escondido atrás das nuvens, queima  no entanto. Não se sentem as frechadas escaldantes dos seus raios, mas tem-se a angustiante sensação de se estar encerrado num forno recém-aquecido.
Caminhávamos há longas horas, a sede trespassava-nos as entranhas e embotava-nos o cerebero. Vivíamos alucinantes momentos de desespero. Dois dias, e nem uma gota de água escorria dos cantis há muito secos. O suor pegajoso ensopava as roupas incómodas. O cansaço fazia-nos arrastar pesadamente os pés. Era vital encontrarmos água!
Inesperadamente, tu disseste: eu vou! E deste meia dúzia de passos... afastaste-te da parca segurança do grupo. Eu devia ter impedido o teu acto tresloucado... e não o fiz! Num assomo de egoísmo e cobardia senti satisfação pela tua decisão. Eu não teria tido coragem!
Subitamente, um estampido! Naquele instante telúrico, vislumbrei o teu corpo cambaleante em trôpegas  passadas, retroceder para junto de mim. As tuas forças esvaírem-se e tu deixaste-te cair nos meus braços. Um fio de sangue ensopou suavemente o teu peito.
O teu rosto exangue... o desespero mudo das ultimas palavras que querias murmurar, estampado nos teus lábios entreabertos. Que me querias dizer? E por fim, a expressão de uma infinita e suave tristeza nos teus olhos já sem brilho. 
Partiste, meu Amigo! Nunca mais acenderás no meu o teu cigarro...

3 comentários:

Anónimo disse...

Lágrimas teimosas queimaram-me os olhos ao ler...porque sei o quanto é importante termos quem nos oiça e eu há bem pouco tempo falhei essa missão!
Nesse dia, tambem eu jurei a mim mesma, não voltar a falhar, porque há momentos, em que as coisas ou se dizem ou, ficarão guardadas para sempre...
Texto lindo o teu Jardineiro, e nunca deixes para amanhã o que podes dizer hoje, porque o amanhã é uma incógnita...

Anixa

Antígona disse...

Que lindo texto. Pode até ser que ele o veja, ou o sinta, quem sabe...

Majo disse...

Infinitamente triste e comovente!
Mas que te sirva de consolo este extrato de uma máxima de Machado de Assis:
"A AMIZADE SENTE-SE, NÃO SE DIZ"

Quantos passaram pela mesma pungente situação a servirem a Pátria numa guerra inglória e infame que cobriu de desonra quem nela participou.
Foram tantos os que partiram precocemente!
Tanta dor dos dois lados!