quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Meu Pai - 2-12-2010

Índio Velho...Desculpa, meu Pai, hoje apeteceu-me tratar-te assim: Índio Velho!
É... mas tu tens mesmo alma de Índio. Nasceste bem longe , na Amazónia, Manaus...
Sempre foste um homem livre, simples, justo e generoso. Nunca renegaste a tua terra. nunca te envergonhaste das tuas origens. Como tantos...
Só que, meu Velho, tu viveste num mundo cruel e insensível, que sempre te maltratou, explorou e, por fim, desprezou. A única coisa que tu tinhas para oferecer era a força dos teus braços, a tua honestidade, a tua alma... um pouco da tua música. E isso nada vale! Decididamente, meu Índio Velho, este mundo não é para homens bons.
Deixa... o importante é que sempre foste igual a ti próprio, Homem de corpo inteiro... e também o legado que me deixaste. O teu exemplo e a memória dos tempos que passámos juntos. As vezes em que nos sentámos à volta da fogueira, lá longe no velho sertão...

"O galo na eira comendo uma espiga...
Batendo com força com o bico no chão.
Ehhh paixão...
Estou convencido que o mundo é ilusão...
E o pingo de chuva, batendo com força
na folha de zinco do meu barracão..."
...
Havia qualquer coisa de mágico nessas noites quentes. Nem sei se eram as miríades de estrelas, o bafo morno e húmido da noite, os revérberos de fogo do poente, os mil sons estranhos que me faziam arrepiar e encolher. Vais ver, Índio Velho. que era o Lobisomem. Aquele ser fantasmagórico, meio homem meio lobo, que segundo os antigos, tinha que percorrer os sete fados em noite de Lua Cheia... Eu nunca vi nenhum e acho que nunca ninguém viu, mas lá que havia... havia! Tanto encantamento,meu Pai, fazia-nos sentir perfeitos... Ou então, quem sabe? O espírito da floresta, da tua terra natal... meu Pai, tu eras um Filho do Vento...
Olha... não ligues ao que eu estou para aqui a dizer. São coisas sem sentido. Disparates de ocasião... Isto é só conversa entre nós os dois. Ninguem vai ler isto. E se alguém perder tempo a escutar as nossas conversas, de certo que não nos vai levar a sério... "coisas de velhos sem jeito..." estou mesmo a imaginar...
Apetece-me remexer no velho baú. Reler o que escrevi. Escrevi para ninguém ler, é que sabes... os deuses não foram muito generosos para comigo, não me presentearam com grandes dons de escrita. Por isso escrevinho sem jeito e sem arte, só para mim.
Sabes o que me doí, meu Velho? As mágoas silenciosas que carrego? É que nos meus escritos tolos estão todas as palavras que eu te queria dizer e não disse. O quanto eras importante para mim...
Caminho no interior da tua ausência, meu Pai, tateando memórias esquecidas e dolorosamente avivadas. É com uma estranha amalgama de dor, saudade, nostalgia, ternura  e, estranhamente, alegria. Sim, alegria, por ter tido o privilégio de ter sentido bem de perto a energia que de ti dimanava. Aí sim, agradeço aos deuses essa fortuna.
Tanta coisa em comum tivemos. A começar pela solidão. Dois homens, dois amigos, com a alma cheia de sonhos nunca concretizados e a mesma caminhada solitária pelas veredas da vida...
Pai... lembras-te quando, à luz de um velho candeeiro a  petróleo de torcida negra de morrão e chaminé cinzenta de fuligem, depois do jantar, nos quedávamos, tu, a mãe Minda e seis filhos, horas infinitas a falarmos de mil coisas, jogarmos aquele jogo que tinha uma lenga-lenga que dizia assim:

"Pico pico maçarico... quem te deu tamanho bico?
Foi o padre da botelha, pra jogar à sobrancelha.
Sobrancelha é redonda como a pulga na balança.
Dá um pincho e põe-te em França..."

Mas sabes mesmo o que eu queria Indio Velho? Queria que pegasses no teu velho bandolim e tocasses para mim. Uma última vez...  Sei lá... talvez uma modinha do teu Brasil distante...
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"Saudade... eu tenho saudade lá do meu sertão...
Cantava com bocas morenas lindas serenatas com o meu violão
Agora.. tão só e distante eu já não sei cantar
Aquelas negras canções lá do meu lugar...
De dia trabalho na enxada.
À noite gosto de cantar
Morena... não tenha pena
Venha comigo pra lá morar..." 

Ou aquela marchinha que fazia vibrar os corações de meninas dos teus tempos de rapaz...

"Os marinheiros aventureiros
São sempre os primeiros 
Na terra ou no mar.
Ao ver as belas pelas janelas
Soltam logo as velas
Para as conquistar..."

Eu sei... eu sei... a mãe contou-me. Aquelas fitinhas coloridas que pendiam do teu bandolim, eram memórias de amores vividos e de paixões antigas. Vá... não fiques constrangido com esta conversa, Velho Índio...
Sempre carregaste em ti o mistério e a sombra difusa que envolveu a tua vida. 
Hoje... hoje já não estás ao pé de mim. Nunca mais  te verei, montado na velha bicicleta a chegar a casa, já noite cerrada,  ao fim de uma dura jornada que começava de madrugada escura,  o rosto brilhante de suor. Não mais tentarás passar despercebidas as tuas mãos queimadas pelo alcatrão quente da estrada que estavas a ajudar a construir... vergonha de quê, meu Pai? Vergonha deviam ter tido os que te usaram. Mas a esses a sorte sorriu, antes, a sorte... compraram-na eles!
Num dia triste, numa cama miserável de hospital, para onde foste atirado por um estúpido acidente de serviço. "Não! Não foi em serviço, já passavam cinco minutos da hora! - sentenciaram eles..." decidiste partir. Através de campos verdes, com a frescura da brisa a soprar nas tuas costas... em direcção ao longínquo horizonte... até que um dia nos voltemos a encontrar...
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Hoje é o dia do teu aniversário! Parabéns Índio Velho Juca...meu Pai! 
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4 comentários:

Lucinha Cullen's Garden and Cia disse...

Claro que valeu! ele deixou lindas lembranças no seu ser. Como você mesmo citou. "O teu exemplo e a memória dos tempos em que passamos juntos".

Recordar é viver!

A paz!

Anónimo disse...

Não tenho palavras para descrever o que senti ao ler a mensagem que envias ao teu Velho Indio Juca...mas fico a pensar porque são sempre dificeis pronunciar palavras de Amor...tu escreves e guardas...porquê? é tão bom ouvi-las...mas elas ficam apenas na tua memoria, e quem parte fica sempre na dúvida que papel teve no Palco da Vida...e depois, depois às vezes é tarde!
Quem fica chora a perda, quem vai...sente o vazio da falta, e por vezes fazem tanta falta...

Uma flor pelo dia de aniversário do teu Pai!

Antígona disse...

Mil sorrisos por este texto :) (Apesar da minha insistência em acreditar que não, que este mundo pode muito bem ser para homens bons, e justos, e honestos,e....)

Majo disse...

Apesar da muita mágoa, esta homenagem é um belíssimo hino ao amor filial.
Foste abençoado por teres uma família que muito te amou e acarinhou e é emocionante constatar como agradeces essa sorte.
Também conheço a referida e linda modinha sertaneja, desde menina...

----------------- BELOS TEMPOS... -----------------