segunda-feira, 1 de agosto de 2011

ARTES DE CURA E ESPANTA-MALES

   Extractos deliciosos de Medicina Popular da imensa recolha feita por Michel Giacometti e publicados no seu livro "Artes de Cura e Espanta-Males" Edições Gradiva, (com a devida vénia)   Para cada mal a sua receita que vai variando consoante a maleita, a região do país e, obviamente, quem prescreve. Vale a pena admirar e deleitarmo-nos...

Dermatologia
Aftas (sapinhos)
-Contra os sapinhos ou aftas das crianças, meter-lhes na boca a chave do sacrário.

- Esfrega-se a língua na cal da parede.

Boqueiras
Curam-se através da aplicação de saliva, enquanto as benzedeiras recitam:
Bicho, bichoucro,
Que vens cá buscar?
Com seiva da boca
E cinza do lar
To hei-de queimar!

Para talhar o farfalho (aftas)
Leva-se a criança a uma corte onde tenham comido na mesma pia um porco e uma porca, passa-se três vezes , em cruz,a criança sobre a pia e diz-se três vezes:
Farfola, vai-te daqui,
Que porco e porca comem aqui.

Brotoeja (Bretueja, vertueja)
Contra a brotoeja, tem sido remédio específico ir a uma pocilga de porcos e esfregar o corpo com a palha que lhes serve de cama, repetindo três vezes: 
Sapo sapão,
Bicho bichão,
Rato ratão,
Lagarto lagartão,
Saramela saramelão,
Aranha aranhão,
E todos os bichos que tais,
Secos mirrados sejais.

Ortopedia - Para curar o pé torcido (ou retrocido)
Com uma agulha de arremendar e num novelo de tiras, vai-se dizendo as palavras e vai-se cosendo no novelo, nove vezes, durante nove dias 
Eu te coso,
Carne quebrada, nervo torto!
Carne quebrada, torna-te a soldari!
Nervo torto, torna o tê lugari!
Nervo que te retrocestes,
Dês te ponha onde tu nascestes!

(para calquer má jeito a um péi, ou em calquer banda)

Pediatria - Primeiro banho
Quando se lava uma criança pela primeira vez, dá-se-lhe água do banho a beber:

Auguinha de cu lavado,
Para a menina ir ao recado.

Auguinha do teu cu,
Que te não de faz mal nenhum.

Quem quiser que o menino cresça,
Lave dos pés p'ra a cabeça.

As boas águas te lavem,
E as boas fadas te fadem.

Auguinha a correr,
E o meu menino a crescer!

Auguinha a lavar,
E o meu menino a medrar!

Cada lavadura,
Cada formosura.

Alguns conselhos...
- Para que a criança não fique com uma face mais gorda que a outra, é deitada, alternadamente, para um lado e para outro.
- Logo que nasce, lava-se a criança com vinho branco.
- Dá-se à criança uma colherzinha de vinho (que é o sangue de Cristo), antes de ela mamar.
- Logo que nasça a criança, lavam-lhe a cabeça com uma clara de ovo, batida numa porção de água morna e temperada com aguardente.
- Tem que se ter cuidado com o cordão umbilical. Se os ratos o levarem, a criança dá em ladrão.
- Deve-se colocar o cordão umbilical dentro de um livro para a criança medrar  bem.

14 comentários:

Maria Paz disse...

Um tratamento não menos estranho, mas que resulta. Para pés ou mãos dormentes, molhar o dedo com cuspo e fazer várias cruzes nas costas da mão ou no peito do pé, conforme o caso, ir molhando o dedo. Não tem reza. Este truque sempre resultou comigo, quanto à explicação científica...

Jardineiro do Rei disse...

Maria Paz...

Não tem explicação científica... é conhecimento e ciência popular. É assim porque sim.

Labirinto de Emoções disse...

É delicioso ler estas crendices populares, mas na verdade é que resultam em muitos casos! lembro-me que quando a minha filha nasceu ela ter os sonos trocados, e eu andar estoirada por não descansar nada de noite.Uma velhota que morava perto de mim, disse-me para colocar uma tesoura aberta debaixo do colchão e po-la a dormir com a cabecita para o lados dos pés.Eu meia incrédula fiz...e resultou, não sei como, mas ela começou a dormir de noite melhor.

Beijito e um sorriso

arKana disse...

Oh que rico blogue eu descobri a estas horas!
adorei esta postagem,
voltarei...
bjs

Mariazita disse...

Olá, bom dia
Muito curiosas todas estas crendices populares.
Quando eu era garota assisti a uma cena muito interessante. Uma criada lá de casa tinha uma dor no braço. Foi a uma mulher que fazia dessas artes para lhe "cortar o ar", que era o que lhe estava provocando dor. Eu era muito pequena, mas recordo-me que a outra lhe pôs um guardanapo branquinho sobre o braço estendido, e sobre este (pano) um copo com água, mas voltado debaixo para cima. Foi dizendo umas rezas e fazendo cruzes sobre o copo, e... a dor passou!!!

Estive dando mais uma olhada no teu blog, e copiei a receita da calda para exterminar pulgão e afins. Vou dar à minha filha, que tem um jardim por vezes com muito pulgão. Tem também uma macieira que todos os anos carrega imenso, mas poucas maçãs saem sem bicho. Será que a calda também é boa para combater essas lagartas da maçã???

Uma boa semana. Beijinhos

Virginia Jesus Fassarella disse...

Oi, jardineiro, primeiro quero retribuir a visita e em segundo lugar te contar que a minha avó materna fazia uma reza parecida para pé torcido, tinha linha, agulha e tudo. Adorei a postagem, me fez lembrar que quando criança vivia as turras com a minha avó, pois, não acreditava na benzedeira dela. Abraço.

Rosarinho disse...

Uauuu além do post ter sido super enriquecedor, e de ter percebido que a a minha mãe não me deitou alternadamente, adorei as dicas aqui dos comentários!

Esse Michel Giacometti tem algum livro escrito? se sim deve ser muito interessante.

Mais uma vez obrigada pela partilha de informação.

Mariazita disse...

Olá, bom dia
Muito obrigada pela sua atenção. Ficarei aguardando informação acerca das moscas :))), que desde já agradeço.

Bom fim de semana. Beijinhos

Lucinha disse...

Jardineiro do Rei,

Eu lhe chamo assim, pois não sei o se nome. Risos

Quando minhas filhas eram pequenas, minha ex-sogra as levava para benzer com uma senhora. Eu não acreditava muito, então, ela dizia que era melhor eu não ir.Risos
O fato é que as minhas filhas ficavam bem após essas visitas.
Me deu saudade desse tempo com essa sua postagem.

Amigo, eu fiz um compromisso comigo mesma, que visitarei todos os amigos blogueiros que acompanho e me acompanham desde o começo.
A lista de seguidores cresceu, mas eu nunca vou me esquecer das primeiras tecladas, do aprendizado, e das amizades que conquistei aqui na blogosfera.
Fico muito feliz em estarmos presentes novamente, um no cantinho do outro.
Tenha um lindo final de semana.

Lilá(s) disse...

Olá
Adoro estas crendices populares, sempre que tenho possibilidades de ir á provincia gosto de ouvir os mais velhos.
Bj, tantas coisas interessantes eles contam!
Bjs

silencio das palavras disse...

Mais do que crendisse é sabedoria popular. Sabedoria que por vezes esquecemos, como esquecemos ou não queremos lembrar o que muitas vezes aprendemos com os nossos avós. Obrigada por nos relembrar coisas tão simples..mas que ainda conservam a essencia da sabedoria ancestral.

anemona do vento..

Mariazita disse...

É isso aí, meu amigo.
Há quem pense que a agricultura não tem nada que saber, é só cavar a terra, deitar a semente, e... esperar qua nasça e cresça.
Mas é uma arte bem mais complicada.
Exige muita sabedoria.
E quando se tentam experiências há que estar preparado para muitos desaires antes de obter bons resultados.
Mas... insiste, que acabarás por vencer:)

Que passes um bom tempo na minha ausência (e não só -:))) ).
Até ao meu regresso tudo de bom.

Beijinhos

Rosa dos Ventos disse...

Só conhecia a da cal da parede para curar aftas!
Muito interessante esta recolha, aliás como as que fez a nível musical!

Majo disse...

Este é o lado divertido e lúdico do blogue do João Carlos, sempre bem vindo e bem conseguido.

Mas faz-nos meditar em como somos
abençoados pela investigação
científica que tem sido feita no
domínio da Fitoterapia e Medicina
Ortomolecular.
Por termos conhecimentos que nos permitem cumprir o que Hipócrates, o pai da Medicina, nos ensinou,
cerca de 400 anos antes de
Cristo: "Faz dos teus alimentos, os teus remédios". E por termos a internet.

Falta convencer os políticos que
temos o direito de decidir se
queremos usar os medicamentos químicos ou naturais.
Só o Jorge Sampaio, quando´
presidente, se manifestou, mas
ninguém lhe ligou nenhuma.

São grandes interesses económicos que envolvem poderosas multinaciomais.

Mas um dia venceremos porque este sistema já é anacrónico!